
“Não é a morte que me importa, porque ela é um fato. O que me importa é o que eu faço da minha vida enquanto minha morte não acontece, para que essa vida não seja banal, superficial, fútil, pequena.“
— Mario Sergio Cortella
Em algum momento da jornada, quase todos nós já estivemos na antessala de um velório testemunhando um fenômeno curioso: o transbordamento repentino de afeto. Coroas de flores suntuosas, discursos embargados e um desespero ruidoso dedicados, não raro, a quem em vida foi austero, ausente, negligente ou abertamente conflituoso.
Para a mente analítica, que se recusa a aceitar os dados apenas pela superfície dos ritos, instala-se um incômodo imediato: por quem realmente choramos quando alguém difícil parte?
A constatação mais lúcida desconcerta: raramente choramos apenas por quem se foi. O caixão nunca é apenas a despedida do outro; ele é um espelho implacável colocado diante de quem fica.
A métrica da irreversibilidade e a biografia editada
Em A morte é um dia que vale a pena viver, a médica e paliativista Ana Claudia Quintana Arantes observa que os lutos mais complexos e tempestuosos não se originam nos vínculos pacificados, mas nas relações ambíguas — aquelas atravessadas por atritos crônicos, mágoas não ditas e distâncias defensivas.
Quando o relacionamento foi transparente e assentado sobre bases sólidas, a dor da perda é profunda, mas repousa na integridade do que foi partilhado. Perante a ruptura com alguém difícil, porém, o que se manifesta não é a saudade limpa: é o choque da irreversibilidade.
A morte é o único corretor que retira, sumariamente, o rascunho de circulação. Não haverá nova versão, nem tempo hábil para reescrever o trecho ou enviar o pedido de desculpas tantas vezes protelado. O choro convulsivo é o lamento amargo de constatar que o texto daquela história encerrou sem aparar as arestas — e sem revisão.
Editar a biografia do falecido no elogio fúnebre torna-se, então, o analgésico social mais acessível. Santificar quem partiu evita encarar verdades desconfortáveis: seres humanos falhos, imperfeitos e egoístas também morrem. A santificação póstuma é o expediente com o qual os vivos tentam apaziguar a própria culpa por terem esperado tarde demais.
O exercício do funeral: Ética do Caráter versus Ética da Personalidade
Essa ilusão de permanência e autoengano encontra um contraponto de rigor metodológico em Stephen R. Covey. Em Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, ao estruturar o princípio de “Comece com o objetivo em mente”, o autor propõe uma visualização guiada desconcertante: entrar em uma capela fúnebre e descobrir que o velório em andamento é o seu próprio, dali a três anos.
O autor convida o leitor a imaginar quatro oradores prestando homenagens — um membro da família, um amigo próximo, um colega de profissão e um representante da sua comunidade. A provocação central é direta:
O que você gostaria que cada uma dessas vozes dissesse, com absoluta honestidade, sobre o seu caráter, sobre as suas contribuições e sobre a diferença real que a sua presença fez na vida delas?
Diante dessa perspectiva, desmorona instantaneamente aquilo que Covey classifica como Ética da Personalidade — a camada superficial de técnicas de influência, verniz corporativo, busca obsessiva por projeção e acúmulo material para validação externa. No leito de morte, ninguém recorda a marca do relógio, a quantidade de horas extras estéreis ou a lista de títulos acumulados.
O que subsiste no inventário final é a Ética do Caráter: integridade, coerência entre fala e ação, capacidade de sustentar compromissos e a solidez dos afetos distribuídos. O exercício do funeral não é morbidez; é uma bússola de precisão. Qualquer discrepância entre o que desejamos ouvir no nosso funeral e a maneira como tratamos as pessoas na terça-feira comum expõe com exatidão a dimensão de nossas máscaras.
O custo do que não se expressa: a gênese dos “Zumbis Existenciais”
O que nos impede de calibrar essa bússola antes que o prazo expire? A covardia de nos desnudarmos diante da própria verdade.
No apócrifo Evangelho de Tomé, encontra-se uma das mais contundentes advertências da literatura sapiencial:
“Se você expressar o que habita em você, isso irá salvá-lo. Mas se você não expressar o que habita em você, isso irá lhe destruir.”
Seja sob a ótica da psicologia analítica — que adverte que conteúdos e afetos reprimidos não morrem, mas passam a agir como sombras corrosivas —, seja sob uma perspectiva humanista, a regra é invariável: sentimentos represados cobram juros existenciais altíssimos.
Ao silenciar discordâncias válidas, reprimir ressentimentos e postergar demonstrações de afeto em prol de uma paz social fabricada, a pessoa inicia um lento esvaziamento interior. Ela se converte no que Ana Claudia Quintana Arantes denomina “zumbis existenciais”: seres que funcionam mecanicamente no cotidiano, mas vivem suas rotinas como mortos que caminham, desconectados de seu âmago e insensíveis a conexões autênticas.
O fato, o Quadrante II e o filtro contra a mediocridade
Aqui reside a síntese precisa articulada por Cortella: a morte em si não comporta escolha; ela é uma certeza estatística. Temer o inevitável é um desperdício primário de energia cognitiva. A única trincheira que cabe à consciência é lutar para que a travessia não seja medíocre, fútil ou superficial.
Covey propõe um modelo de gestão para essa escolha, categorizando as necessidades humanas conforme sua urgência e relevância. A maioria das pessoas gasta sua existência presa nas crises do dia a dia ou cedendo às exigências externas e barulhentas. Dessa forma, deixam de lado o Quadrante II: a área de atividades cruciais, porém sem prazo iminente.
O Quadrante II é onde a vida de fato acontece:
- A conversa difícil que precisa ser desatada sem subterfúgios;
- O almoço sem celular com os filhos ou com quem se ama;
- O cuidado diário com a própria saúde e equilíbrio interior;
- O tempo dedicado a construir projetos que transcendem o ganho imediato.
A morte só nos assombra com pânico desmedido quando percebemos, tarde demais, que passamos décadas dedicados ao que era meramente urgente e descartável, protelando o essencial para um amanhã que acaba de ser cancelado.
Morrer vivos: a autoria do próprio rastro
A finitude não existe para apequenar a existência, mas para operar como o mais implacável filtro de relevância — o único algoritmo capaz de impedir que a vida se degenere em banalidade. É a certeza de que a contagem regressiva está ativa que confere peso moral a cada escolha, impedindo que a vida seja tratada como um ensaio geral.
Diante do muro final, nenhum artifício retórico tem poder de reescrever a narrativa que deixamos para trás. Para que o nosso velório não precise de encenações consoladoras nem de lágrimas nascidas da culpa, impõe-se a urgência do alinhamento:
- Substituir o cálculo pela integridade: Deixar de operar sob a lógica da conveniência da imagem pública e ancorar a conduta na solidez dos princípios fundamentais.
- Desobstruir a verdade interna: Dizer o que precisa ser dito com a coragem da compaixão, desfazendo pendências enquanto ainda há interlocutor do outro lado da mesa.
- Habitar o Quadrante II: Assumir a liderança da própria agenda para que o tempo de vida não seja sequestrado pela tirania do banal.
As pessoas que presenciam os momentos finais da existência nos transmitem que o desfecho não é obrigatoriamente um infortúnio; pode representar a conclusão honrosa de alguém que ousou trilhar seu próprio destino. Em última análise, a maior vitória do ser humano reside em garantir o privilégio de alcançar o último alento em plena vitalidade — despojado de disfarces, em harmonia consigo mesmo e completo naquilo que decidiu edificar.
Quando o seu rascunho for retirado de circulação, que texto terá ficado gravado na vida de quem caminhou ao seu lado?